Passados 92 anos de sua partida, a memória de Cícero Romão Batista, o eterno “Padim Ciço”, continua mais viva do que nunca no coração dos cearenses e dos milhares de romeiros que ainda hoje peregrinam a Juazeiro do Norte. Em 1934, aos 90 anos, o sacerdote que fundou a cidade e marcou a história do Cariri enfrentava seus últimos dias sob o peso da idade e da saúde fragilizada.
O ocaso de um líder
Cego de um olho e com a visão severamente comprometida no outro, Padre Cícero passou seus últimos meses recolhido no casarão da Rua São José. O homem que governou Juazeiro por décadas, transformando um pequeno povoado em um centro de fé e desenvolvimento, via o mundo restringir-se às paredes de sua residência. Seus momentos finais foram acompanhados por um círculo íntimo de beatas e afilhados, que registraram detalhes minuciosos do sofrimento e das últimas horas do líder religioso.
O mistério da causa da morte
Documentos históricos apontam que a causa do óbito foi um colapso digestivo. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, após uma cirurgia de catarata sem sucesso, a saúde do sacerdote entrou em declínio progressivo. O “desfalecimento orgânico” culminou em uma obstrução intestinal que, à época, a medicina não conseguiu reverter.
As últimas palavras de um santo popular
Na madrugada de 20 de julho de 1934, a vigília tomou conta do casarão. Conforme registros biográficos, o Padim, entre respirações difíceis, teria dito: “No Céu, eu rogarei a Deus por todos vocês”. Relatos ainda indicam que ele chamou por seu pai em um momento final de introspecção, ouvido apenas por sua afilhada, Amália Xavier, que mantinha o ouvido rente à boca do sacerdote.
O curioso episódio dos dois caixões
O velório, que durou intensas 30 horas e reuniu cerca de 60 mil pessoas, reservou uma curiosidade logística: a necessidade de dois caixões. Como as urnas funerárias eram artesanais e feitas sob medida, o processo de degradação do corpo e o inchaço natural impediram que o primeiro caixão fosse utilizado até o fim, exigindo a confecção rápida de um segundo para que as homenagens pudessem continuar.
O “milagre” do braço
Um episódio inusitado ocorreu durante a exibição do corpo no janelão do casarão. Quando o então futuro prefeito José Geraldo da Cruz posicionou a urna para que os fiéis vissem o Padim, um movimento brusco fez com que o braço do corpo se movesse. O susto levou alguns devotos a gritarem que o Padre havia ressuscitado, transformando a comoção em um relato folclórico que atravessou gerações.
Legado e locais de memória
Hoje, a trajetória do Padim é preservada em espaços que mantêm viva a chama da devoção:
Casarão da Rua São José: Antiga moradia do sacerdote, onde ele fazia de uma das janelas seu púlpito para conversar com os romeiros. O local mantém objetos pessoais e animais empalhados. Aberto de segunda a sexta, das 7h30 às 12h e 14h às 17h, e sábado até o meio-dia.
Memorial Padre Cícero: Situado no bairro do Socorro, o memorial abriga uma biblioteca rica com cartas, livros de medicina e registros da história do Cariri. Aberto de segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 17h.
Casarão do Horto: Refúgio de descanso de Padre Cícero. Hoje um museu, é repleto de ex-votos, testemunhas das graças alcançadas pelos fiéis. Aberto todos os dias, das 7h às 17h.
Todos os locais oferecem entrada gratuita, mantendo as portas abertas para quem busca entender a complexa e fascinante história do homem que, mesmo sob análise de beatificação pelo Vaticano, já habita o altar definitivo: o coração do povo cearense.
Informações baseadas no portal G1 Ceará.

