Em Juazeiro do Norte, o avanço desenfreado do desenvolvimento urbano tem cobrado um preço alto: o apagamento da história contida em tijolos e argamassa. Enquanto a cidade celebra seus 115 anos, a arquiteta Hévila Ribeiro decidiu seguir um caminho diferente, transformando a restauração de um casarão do século passado em um símbolo de resistência contra o esquecimento.
Memória sob risco de demolição
A iniciativa de Hévila nasceu de um mapeamento minucioso realizado ainda na época da faculdade. Ao catalogar mais de 800 imóveis no Centro, o diagnóstico foi alarmante: cerca de 70% das construções antigas haviam sido destruídas para dar lugar a estacionamentos, lojas e pousadas. A pressão do comércio e do turismo, muitas vezes sem critério de preservação, transformou o coração da terra do Padre Cícero em um ambiente descaracterizado, onde as novas necessidades ignoraram o valor histórico das estruturas pré-existentes.
Resgatando a arquitetura original
O casarão na Rua da Conceição, que Hévila recupera há dois anos, é uma aula de história. Com traços do ecletismo das décadas de 1930 a 1950, o imóvel mistura o estilo colonial, a geometria Art Déco e influências europeias. O trabalho de restauração, que preservou mais de 80% da estrutura original, enfrenta o desafio da escassez de mão de obra especializada. Encontrar profissionais que dominem técnicas construtivas antigas é, segundo a arquiteta, uma das partes mais complexas do processo, exigindo paciência e um cuidado artesanal que foge da lógica das construções modernas.
O papel do poder público e o trauma urbano
O coordenador de Patrimônio Cultural de Juazeiro do Norte, Roberto Júnior, admite que a cidade vive um processo de perda de identidade material. Embora a gestão municipal busque reverter esse quadro com o tombamento de 40 bens, o histórico de demolições é vasto. Até mesmo ícones, como a Praça Padre Cícero, perderam boa parte de seu entorno original. Houve ainda, no passado, uma mentalidade “higienista” que destruiu capelas e cemitérios históricos, apagando referências religiosas e sociais em nome de um progresso que não considerou o legado cultural.
Patrimônio Imaterial: a fé como pilar
Se o patrimônio físico sofreu, a memória religiosa ganhou um importante reconhecimento federal. O Iphan classificou os “Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte” como patrimônio imaterial cultural brasileiro. A chancela inclui locais como o Complexo do Horto, a Basílica de Nossa Senhora das Dores e a Capela do Socorro. Mais do que edifícios, esse título valoriza a trajetória dos romeiros, protagonistas da história de Juazeiro desde a chegada de Padre Cícero em 1872.
Para o setor público, a expectativa é que esse reconhecimento facilite a captação de recursos para a preservação desses espaços, fortalecendo não apenas a fé, mas também a infraestrutura turística. Enquanto isso, na prática, o esforço solitário de cidadãos como Hévila Ribeiro serve como um lembrete necessário: uma cidade que não preserva seu passado corre o risco de não ter sua própria história para contar às futuras gerações.
Edição: Portal Itarema Direto.

