A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) abriu suas portas nesta quarta-feira (22) celebrando a genialidade de Orides Fontela. Homenageada do evento, a poeta foi definida pelo crítico literário Augusto Massi, seu amigo e editor, como uma figura “universal”, capaz de transitar entre a fragilidade e a força, a lucidez e o delírio.
Uma trajetória marcada pela intensidade
Durante a mesa de abertura, realizada diante de um auditório lotado, Massi conduziu o público por uma imersão na obra da autora. O crítico destacou como a trajetória de Orides foi moldada por diversas influências, desde a formação católica e a tradição greco-romana até os profundos estudos em filosofia e o interesse pelo zen budismo. Essa pluralidade de referências é o que confere ao seu trabalho um caráter único e atemporal.
Ao longo de sua carreira, Orides publicou cinco obras fundamentais: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983) — premiada com o Jabuti —, Rosácea (1986) e Teia (1996).
Da abstração ao olhar sobre si mesma
Massi apontou uma mudança significativa na poética da escritora a partir do livro Rosácea. Se anteriormente Orides utilizava formas geométricas, mitos e interlocutores fictícios — como Penélope ou São Sebastião — para se expressar, em suas obras maduras ela passou a olhar para sua própria história. O poema “Herança”, por exemplo, é citado como um marco onde a autora transforma objetos simples de sua infância, como um martelo ou um lenço, em símbolos potentes de uma “pobreza que se torna riqueza” através da poesia.
O rigor da forma e a despedida na poesia
A precisão visual e plástica foi uma marca constante de seu estilo. O crítico ressaltou a maestria com que a autora utilizava a pontuação como elemento construtivo do texto. No poema “São Sebastião”, o uso dos travessões não serve apenas à gramática, mas evoca visualmente as flechas que atingem o corpo do mártir, integrando a forma ao significado.
O encerramento do evento focou na obra final da poeta, o livro Teia, publicado dez anos antes de seu falecimento. Massi interpretou os poemas desse período como um confronto com a finitude. Segundo o crítico, o último poema publicado por Orides em vida, “Estrela da Tarde”, funciona como uma síntese de sua jornada: o brilho intenso de quem, mesmo diante da morte, afirma sua presença no mundo com coragem e lucidez.
A Flip segue com uma extensa programação cultural no centro histórico de Paraty até o próximo domingo (26).
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

