Em 13 de setembro de 1987, um episódio que marcaria para sempre a história do Brasil teve início em Goiânia. Dois catadores de material reciclável encontraram, nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), um equipamento abandonado. Sem saber que se tratava de uma fonte radioativa, eles removeram a cápsula e revelaram um pó que emitia um brilho azul intenso no escuro: o césio-137. O material, altamente perigoso, desencadearia o maior incidente radiológico da história do país.
O registro de uma ferida aberta
Quase 40 anos após o desastre, o impacto humano do césio-137 é revisitado pelo documentário Lourdes e Leide, do diretor Angelo Lima. A obra, exibida no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul, foca na trajetória de dona Lourdes, uma mãe que carrega até hoje as cicatrizes da morte da filha, Leide, que tinha apenas seis anos quando foi vítima da radiação.
Para o cineasta, o filme cumpre o papel de denunciar o abandono e o sofrimento contínuo dessas famílias. “Foi uma tragédia silenciosa. O Estado falhou ao permitir que um material tão perigoso fosse deixado à mercê da população, que não tinha dimensão do perigo”, afirma Lima, reforçando a necessidade de reparação histórica aos sobreviventes.
A tragédia que se espalhou
Após ser retirado do IGR, o material foi levado a um ferro-velho, onde o dono, Devair Alves Ferreira, encantado pela luminosidade do pó, o distribuiu entre familiares e amigos. A contaminação se tornou inevitável. Em poucos dias, sintomas como náuseas, vômitos e tonturas começaram a surgir entre todos que tiveram contato com a substância.
Leide das Neves, filha de Ivo Ferreira — irmão de Devair —, ingeriu partículas do material. Sua morte, em 23 de setembro de 1987, tornou-se um dos símbolos mais dolorosos do desastre: devido ao alto nível de radiação, seu corpo precisou ser sepultado em um caixão de chumbo de 700 quilos. Outras três pessoas morreram poucas semanas após o contato com o césio.
O estigma de um povo
Recentemente, a dor de dona Lourdes foi renovada com a morte de seu filho, Lucimar das Neves Ferreira, também afetado pelo acidente décadas atrás. A perda trouxe à tona não apenas o trauma da saúde física fragilizada, mas também o isolamento social sofrido pela família.
O diretor Angelo Lima recorda que, na época, as vítimas foram alvo de preconceito e medo. “As pessoas na rua apontavam e diziam: ‘olha o pessoal do Césio’, fechando portas e janelas. Eles foram forçados a se mudar diversas vezes. Esse estigma destruiu laços e vidas por muito tempo”, lamenta.
Um apelo pela memória
A exibição do curta no Bonito CineSur serve como um alerta sobre a fragilidade humana e a falta de preparo do Estado para lidar com situações de crise radioativa. Além do filme, uma exposição de fotos resgata a memória das vítimas, incluindo registros do enterro de Leide, onde, tragicamente, a família chegou a ser hostilizada.
Para Lima, a sociedade brasileira ainda mantém uma postura de negação sobre o ocorrido. “As pessoas esqueceram rapidamente porque quiseram esquecer. Não houve humanidade. É fundamental que tragédias como esta não sejam apagadas, para que possamos aprender e, acima de tudo, acolher aqueles que continuam a carregar o peso de um erro que não foi deles”, conclui o diretor.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

