Crise comercial: EUA taxam produtos brasileiros
O comércio exterior brasileiro enfrenta uma nova turbulência. Desde esta quarta-feira (22), uma série de produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos passou a sofrer uma taxação adicional de 25%. A medida, tomada de forma unilateral pelo governo norte-americano, é justificada sob alegações de práticas desleais no mercado internacional. O governo brasileiro, por outro lado, estuda aplicar a Lei de Reciprocidade para responder ao que classifica como uma ação injusta.
A tensão deve aumentar nos próximos dias. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços trabalha com a expectativa de uma nova sobretaxa, desta vez de 12,5%, totalizando um impacto tarifário de até 37,5% em certos setores. Segundo o governo dos EUA, a medida visa punir o Brasil por supostas falhas no combate ao desmatamento, à corrupção, pelo uso do sistema Pix e, principalmente, pela alegada falta de restrições à importação de mercadorias produzidas sob condições de trabalho forçado.
Brasil contestado, mas referência global
Embora Washington aponte o Brasil como falho no combate à escravidão moderna, especialistas e órgãos internacionais divergem dessa leitura. O Brasil é, reconhecidamente, uma referência mundial na erradicação do trabalho escravo, sustentado por um sistema robusto que envolve fiscalização rigorosa, responsabilização criminal e cooperação institucional.
O governo brasileiro, em nota oficial, manifestou “profunda discordância” do relatório norte-americano. A gestão federal aponta que as sanções têm caráter protecionista e desvirtuam um tema sensível — a dignidade humana — para fins puramente comerciais. Além disso, o país reforça seu compromisso com a Convenção nº 29 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual é signatário, ao contrário dos Estados Unidos.
O impasse técnico
Para o professor de direito internacional Thiago Romero, do Ibmec-SP, a crítica dos EUA confunde questões jurídicas distintas. “Existe uma diferença clara entre combater o trabalho forçado dentro do seu território e proibir a entrada de produtos estrangeiros fabricados nessas condições”, esclarece. Segundo o especialista, o Brasil possui um arcabouço legal avançado internamente — citado pelo artigo 149 do Código Penal —, mas ainda carece de um mecanismo aduaneiro específico que impeça a entrada de mercadorias de terceiros países baseada apenas na origem do trabalho.
Essa lacuna técnica é o que Washington utiliza para justificar as tarifas, exigindo que outros países adotem modelos regulatórios idênticos aos dos EUA. Para especialistas, a pressão americana reflete menos uma preocupação humanitária e mais uma tentativa de impor sua própria legislação ao resto do mundo, utilizando o cenário político-eleitoral interno do país para mascarar uma estratégia protecionista.
O debate legislativo
No Congresso Nacional, tramita desde 2015 o Projeto de Lei 2.799/2015, que visa justamente criar mecanismos para barrar a importação de bens produzidos com trabalho forçado ou infantil. Contudo, a morosidade legislativa não pode ser confundida com omissão, ressalta Jean Menezes de Aguiar, professor da FGV.
Aguiar destaca a força da Constituição Federal brasileira, que prevê punições severas — como a expropriação de terras sem indenização para quem explora trabalho escravo. “Não existe no plano civil uma sanção maior do que a expropriação de um bem no modelo capitalista”, pontua. Para o advogado, o país possui instrumentos legais suficientes para coibir abusos e o foco americano é, acima de tudo, uma manobra política.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.

