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Flip: Angela Davis cita pensadores brasileiros e critica gentrificação

Brasil e Mundo Cultura

Angela Davis defende resistência coletiva na Flip

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado neste sábado (25), a ativista e pesquisadora Angela Davis foi o grande destaque da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Em um evento gratuito no Sesc Caborê, a filósofa conversou com a jornalista Flávia Oliveira, reafirmando a importância da cultura e da literatura como ferramentas para alcançar dimensões de luta que a política convencional, por vezes, não acessa.

Durante sua passagem por Paraty, Angela não poupou críticas aos impactos do turismo predatório. “Podemos sentir a presença dos ancestrais aqui, que tiveram papel fundamental durante o período da escravização”, pontuou. Ela denunciou o racismo ambiental e a gentrificação que afeta comunidades locais, onde a busca pelo lucro imobiliário tem expulsado famílias de seus territórios ancestrais.

Diálogo com o pensamento brasileiro

A conversa foi marcada por uma profunda reverência ao pensamento brasileiro. Ao abordar o conceito de “escrevivência”, de Conceição Evaristo — presente na plateia e elogiada por Angela como uma das grandes vozes da literatura mundial —, a ativista destacou que o reconhecimento das narrativas negras é uma conquista recente e vital.

Outro ponto alto foi o tributo a Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez. Ao citar Beatriz e o conceito de “ser atlântica”, Angela refletiu sobre o internacionalismo como sua “primeira iluminação”. Já ao mencionar Lélia Gonzalez, a filósofa destacou o conceito de “Amefricanidade” e a necessidade urgente de criticar o capitalismo moderno. “Lélia Gonzalez é uma crítica do capitalismo, algo que precisamos fazer na era dos trilionários, que exploram a terra sem pensar nas consequências”, afirmou.

Contra o autoritarismo e a violência

Em um momento de análise sobre o cenário político global, Angela Davis foi enfática ao afirmar que o fascismo não tem raízes no desejo popular. “Ele emerge na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, mas não entre o povo”, ponderou, alertando os brasileiros sobre os perigos de eleger candidatos alinhados a ideologias autoritárias.

A ativista também trouxe o debate sobre o encarceramento e a violência. Ao recordar sua própria prisão na década de 70, Davis ressaltou que a mobilização internacional foi o que salvou sua vida. “As pessoas se unindo além das fronteiras podem impedir a violação de direitos”, disse. Ela também honrou a memória de Marielle Franco, destacando que a luta contra a violência de gênero deve incluir, obrigatoriamente, o enfrentamento à violência do Estado e a proteção das populações mais vulneráveis, como as mulheres trans negras.

Encerrando a conversa, Angela celebrou as conquistas recentes de inclusão no sistema universitário brasileiro, mas fez um alerta necessário: “Conquistamos essas vitórias, mas não nos acomodemos. Temos que continuar lutando”.


Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

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