O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que a queda da aeronave da Voepass, ocorrida em agosto de 2024 em Vinhedo (SP), foi impulsionada por uma falha sistêmica na cultura organizacional da companhia. O acidente, que resultou na morte de 62 pessoas, foi marcado por alertas ignorados, manutenções inadequadas e a recorrente omissão de falhas técnicas por parte das tripulações.
Cultura de omissão e riscos
As investigações revelaram um padrão preocupante: pilotos e copilotos frequentemente normalizavam desvios de segurança. Registros de voos anteriores à tragédia mostraram que o sistema de degelo apresentou falhas diversas vezes, mas os incidentes não eram relatados nos diários de bordo. Segundo o Tenente-Coronel Fróes, investigador responsável, essa prática não era isolada, refletindo uma cultura organizacional enraizada onde problemas operacionais eram minimizados em vez de reportados.
Fragilidades na manutenção
O relatório do Cenipa apontou que as práticas de manutenção da Voepass não cumpriam requisitos básicos de segurança. Relatos de mecânicos indicam uma conduta arriscada: componentes defeituosos eram retirados de uma aeronave e instalados em outra, permitindo que aviões com problemas técnicos fossem liberados para voo. O Brigadeiro do Ar Avellar, chefe do Cenipa, reforçou que, embora 19 fatores tenham contribuído para o acidente, a cultura organizacional foi o elemento preponderante.
O papel do gelo no acidente
Durante o trajeto entre Cascavel e Guarulhos, a aeronave foi atingida por condições severas de congelamento. O sistema de proteção de gelo emitiu alertas constantes e chegou a falhar, sendo desligado pela tripulação. O procedimento técnico correto exigia que, diante da falha, a aeronave fosse desviada para níveis de voo mais baixos, onde as temperaturas seriam menos extremas, o que não foi executado.
Além disso, o avião operava com uma restrição técnica nos limpadores de para-brisa, que o impedia de realizar voos sob previsão de chuva — condição que não foi respeitada. Ao analisar 15 mil voos da companhia, o Cenipa identificou que, em mais de 1,6 mil ocasiões, houve alertas de degradação de performance que jamais foram comunicados às autoridades aeronáuticas.
Sobrecarga da tripulação
Nos minutos finais, o acúmulo de gelo, somado à queda de velocidade e à complexidade das comunicações com a torre de controle, criou um cenário de sobrecarga cognitiva. Os pilotos tentavam gerenciar falhas de sistema, procedimentos de descida e tráfego aéreo simultaneamente. Segundo o Cenipa, o cérebro humano não conseguiu processar o excesso de informações, o que retardou a resposta necessária aos alertas. Essa demora na tomada de decisão levou à perda gradual de controle, resultando na queda em parafuso do turboélice.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

