Relatório aponta 282 mortes em operações policiais na Baixada Fluminense
Um levantamento inédito da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial) revelou um cenário crítico na segurança pública da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Entre 2020 e 2025, foram contabilizadas 282 mortes decorrentes de intervenções policiais na Baixada Fluminense. O estudo, que analisou dados de 5.298 operações, também registrou 5.783 prisões, 652 feridos e a apreensão de 41 adolescentes.
Para Kharine Gil, pesquisadora e mestre em sociologia pela IDMJRacial, os dados expõem o atual modelo de atuação estatal em favelas e periferias. Segundo ela, é necessário questionar a eficácia e o custo social dessas ações, indo além do discurso oficial de segurança pública para entender o impacto direto nas comunidades locais.
Atuação da Polícia Militar
A Polícia Militar foi responsável por 86% das operações mapeadas. O relatório destaca a atuação de três batalhões específicos: o 15º BPM (Duque de Caxias), que liderou o número de intervenções (1.289), seguido pelo 20º BPM (Mesquita, Nova Iguaçu e Nilópolis) e pelo 39º BPM (Belford Roxo).
Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que não comenta levantamentos externos que não utilizem registros oficiais da corporação. A PM reafirmou que seu planejamento é técnico e estratégico, focado em áreas com alta incidência de criminalidade e presença de grupos armados, e garantiu que todas as ocorrências com morte passam pelo rigoroso acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário.
O aumento da letalidade na Polícia Civil
O documento da IDMJRacial aponta uma mudança preocupante no padrão operacional da Polícia Civil. Embora o número absoluto de operações tenha oscilado, a letalidade proporcional cresceu significativamente. Em 2025, por exemplo, o volume de operações foi menor que em anos anteriores, mas a taxa de letalidade alcançou 18% — ou seja, quase uma em cada cinco ações resultou em óbito.
A Polícia Civil justificou o aumento das operações pela retomada das atividades pós-pandemia e pela criação de novas delegacias especializadas na Baixada. A corporação defende que suas ações são baseadas em inteligência e cumprimento de mandados judiciais, ressaltando que o confronto só ocorre em resposta a ataques de grupos armados.
Impacto na economia popular e apreensões
Um ponto central do relatório é a predominância de motocicletas nas apreensões (60% do total). Fransergio Goulart, diretor executivo da IDMJRacial, avalia que essa política de fiscalização afeta diretamente a economia dos trabalhadores informais. Em um cenário onde a moto é a principal ferramenta de renda para entregadores e mototaxistas, o confisco desses veículos atua como uma forma de “gestão da pobreza”, impactando a capacidade de sustento das famílias.
Armamento apreendido versus discurso oficial
O estudo também questiona a justificativa das operações baseadas no combate ao “arsenal de guerra”. Os dados mostram que os fuzis representaram apenas 5,5% do total de armas apreendidas entre 2020 e 2025, enquanto metralhadoras somaram apenas 0,8%. A maior parte dos itens recolhidos consiste em pistolas e rádios comunicadores.
Para os especialistas da IDMJRacial, a baixa apreensão de armamento pesado em comparação com a violência empregada nas intervenções levanta dúvidas sobre a proporcionalidade da força utilizada pelo Estado durante as incursões nessas regiões.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

