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Mesmo sem assassinatos há um ano, ex-moradores resistem em voltar a vilarejo que teve saída em massa

Ceará Polícia

O distrito de Uiraponga, em Morada Nova, completou um ano sem registrar assassinatos. O reforço no policiamento e as ações de infraestrutura trouxeram um fôlego novo à região, mas o cenário de tranquilidade ainda não foi suficiente para curar as feridas de quem foi forçado a abandonar tudo. A comunidade, que sofreu um êxodo em massa em julho de 2025 devido à guerra de facções, vive agora um lento e cauteloso processo de retomada.

Retorno gradual em Uiraponga

Dados da prefeitura de Morada Nova indicam que mais de 80 famílias já voltaram a ocupar suas residências. O levantamento, conduzido por agentes de saúde locais, aponta que o movimento de retorno se intensificou a partir de junho deste ano. O esforço das autoridades no combate ao crime também trouxe resultados práticos: treze suspeitos de envolvimento nos chamados “deslocamentos forçados” — quando criminosos expulsam moradores de suas casas — foram presos, incluindo um dos apontados como mandante das ações, capturado em São Paulo.

O trauma do abandono

Apesar da segurança reforçada, muitos ex-moradores ainda hesitam em retomar a vida como era antes. O sentimento de perda é profundo para quem precisou fugir às pressas. Maria José do Nascimento, a “Mazé”, de 63 anos, é uma dessas pessoas. Ela deixou sua casa há dez meses para buscar refúgio em Limoeiro do Norte, onde mora com a filha.

“Foi doído! Uma das últimas que saiu fui eu. Todo mundo saiu chorando”, desabafa Mazé. Hoje, ela vive dividida: visita sua casa em Uiraponga com frequência, mas ainda não se sente pronta para morar definitivamente no local. “Quando perguntam se vou voltar, digo que não sei. Não posso dizer que não volto, pois nasci e me criei aqui, mas não estou confirmada agora. Só Deus sabe”, completa.

Entre a esperança e a incerteza

O perfil dos moradores que mantêm o vínculo com a terra é variado. O aposentado José Bento Neto, que mantém raízes na comunidade mesmo tendo residido por anos em Fortaleza, enxerga o momento atual com otimismo. Ele lembra o dia em que o pânico tomou conta do distrito — durante os preparativos para a Festa de Nossa Senhora do Livramento — e acredita que o pior ficou para trás.

“Já melhorou muito e vai melhorar mais ainda”, afirma Bento, confiante nas obras e nas transformações que estão sendo feitas no distrito. Para ele, o vilarejo, que chegou a ficar vazio sob a sombra do medo, agora tenta escrever um novo capítulo, ainda que a cicatriz do trauma recente permaneça no cotidiano de quem ainda tenta decidir se o lugar de chamar de “lar” continua sendo onde tudo começou.


Informações baseadas no portal G1 Ceará.

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