O coletivo Direito à Comunicação e Democracia (Diracom) lançou, na última quarta-feira (29), o Observatório De Olho na Censura. A plataforma chega como um espaço dedicado ao monitoramento, registro e análise sistemática de violações que atingem a liberdade de expressão, o direito à comunicação e o acesso à informação no Brasil.
Novos rostos da censura
Durante a transmissão de lançamento, especialistas destacaram que as formas de silenciamento evoluíram. Segundo a jornalista Ramênia Vieira, do Diracom, a censura moderna não parte apenas do Estado, mas também de empresas privadas, plataformas digitais e grupos de poder que restringem o debate público.
“Entendemos a censura como um conjunto de práticas que produzem o silenciamento e impedem a circulação de ideias. Muitas vezes, a própria mídia tradicional acaba por restringir o debate, limitando as vozes que deveriam chegar à sociedade”, afirmou a jornalista.
Canal aberto para denúncias
A ferramenta permite que qualquer cidadão que tenha sofrido ou presenciado episódios de censura registre a ocorrência. Os dados serão compilados para gerar relatórios e embasar ações de proteção à pluralidade de vozes no país. Para Samira Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o observatório é um instrumento fundamental de defesa dos direitos humanos.
O peso do assédio judicial
Um dos pontos mais críticos levantados durante o evento foi o uso de ações judiciais como forma de intimidação. Para a Fenaj, o assédio judicial tornou-se a principal forma de violação contra jornalistas, perdendo apenas para as agressões físicas. O fenômeno é ainda mais acentuado no interior do país, onde, segundo o jornalista Leonardo Sakamoto, os poderes político e econômico muitas vezes se fundem para sufocar investigações jornalísticas.
Sakamoto também alertou para a autocensura imposta pela lógica dos algoritmos. “Jornalistas estão sendo forçados a trocar pautas importantes por temas mais palatáveis para a audiência, cedendo a uma pressão que ignora o interesse público”, pontuou.
O papel das Big Techs
O debate também se voltou para o comportamento das plataformas digitais. Humberto Vieira, diretor do Sleeping Giants, citou a remoção de contas de grupos minorizados, como ocorreu com ativistas LGBTQIAPN+ pela Meta, como um exemplo preocupante de censura algorítmica. O caso, que chegou a ser investigado pelo Ministério Público Federal, reforça o debate sobre a moderação de conteúdo feita por empresas de tecnologia.
Complementando a análise, a antropóloga Fernanda Martins apontou que o cenário brasileiro dialoga com tendências na América do Sul, onde ataques direcionados — especialmente contra mulheres — utilizam estereótipos de gênero e o corpo das profissionais como alvo para tentar deslegitimar seu trabalho jornalístico.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

