Resgate histórico: livro traz à luz poetas brasileiras ignoradas pelo tempo
Ao longo de quatro séculos, a literatura brasileira foi marcada por uma constante: a invisibilidade de suas escritoras. A obra Inesquecíveis: Quatro Séculos de Poetas Brasileiras (Bazar do Tempo), escrita pela pesquisadora Ana Rüsche em parceria com Lubi Prates, propõe um acerto de contas com a história. O livro não apenas compila poemas, mas resgata trajetórias de mulheres que, entre os séculos 18 e 21, precisaram equilibrar a criação literária com o ativismo político e a organização intelectual.
Para Ana Rüsche, professora de teoria literária na Universidade de Brasília (UnB), a escrita nunca foi uma atividade isolada para essas autoras. “Elas traduziam, publicavam, organizavam outras mulheres e lideravam movimentos. Só escrever nunca foi uma opção para essas poetas”, afirma. Nomes como Martha de Hollanda, Pagu e Beatriz Nascimento ilustram essa pluralidade de vivências e engajamentos.
O desafio de reconstruir memórias fragmentadas
A produção do livro foi um trabalho minucioso de arqueologia literária. Muitas das obras reunidas estavam espalhadas em arquivos, teses acadêmicas e hemerotecas digitais. Segundo Rüsche, o processo exigiu um olhar atento, muitas vezes partindo de fragmentos para reconstituir o que antes era considerado perdido. O mérito da coletânea é justamente consolidar esse material, oferecendo novas bases para o estudo da literatura nacional.
O livro abrange um arco histórico vasto, desde o Brasil colonial até a ascensão da diversidade editorial contemporânea, representada por nomes como Conceição Evaristo. A obra destaca como essas mulheres estiveram presentes em momentos decisivos do país, da luta pela independência à campanha pelo voto feminino e ao fortalecimento da imprensa feita por mulheres.
Poesia como ferramenta de denúncia
Um dos pontos altos abordados por Rüsche é a capacidade da poesia de atuar como denúncia social desde séculos passados. A pesquisadora cita o exemplo de Adélia Fonseca (1827-1920), que utilizou a escrita para protestar contra o feminicídio de Julia Fetal no século 19. “Essa denúncia não é algo que surgiu no século 21; é um reflexo de uma injustiça profunda e de um sistema patriarcal contra o qual as mulheres lutam há muito tempo”, destaca a autora.
A importância do livro também reside na valorização de pesquisadoras que, como a historiadora Cláudia Pereira — responsável por dedicar 13 anos ao estudo da poeta Beatriz Brandão —, dedicam suas vidas a recuperar a memória nacional. Rüsche, que também abordou essa rotina de investigação em sua obra de ficção Carga Viva, reforça que a busca pelo que foi negligenciado é um ato de resistência e um pilar fundamental para a identidade cultural do Brasil.
O lançamento e os debates em torno do livro ganharam palco na 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento que, neste ano, homenageia a poeta Orides Fontela, outro exemplo de potência literária cuja obra permaneceu por muito tempo à margem do grande público.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

