O Vale do Café, no sul fluminense, celebra uma marca histórica: os 70 anos de vida de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha. A comemoração acontece simultaneamente ao 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, realizado no Parque das Ruínas de Pinheiral, um evento que também marca o Dia Estadual do Jongo.
Tradição e resistência no Vale
O encontro deste sábado (25) reúne cerca de 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para a Mestra Fatinha, a escolha do local não é por acaso: o evento ocorre onde, no Brasil Colônia, funcionou a Fazenda São José dos Pinheiros, que abrigou mais de 3 mil pessoas escravizadas. “Herdamos essa tradição e a mantemos viva através de vários núcleos familiares”, explica a matriarca.
Há cinco décadas, Fatinha atua na preservação da cultura negra na região. Para ela, o jongo é muito mais que uma dança ou ritmo; é uma estratégia de sobrevivência e liberdade. “O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto. Nossos antepassados o utilizavam para se organizar, expressar a saudade da África e cultuar seus orixás”, enfatiza.
Valorização acadêmica e identidade
O trabalho de Mestra Fatinha ganhou reconhecimento além das rodas de jongo. Em 2024, a Universidade Federal Fluminense (UFF) concedeu à mestra o título de “Notório Saber”. Ela destaca a importância de que o povo negro assuma o protagonismo de sua própria história: “Enquanto o Vale do Café é conhecido pela memória dos barões, nós fazemos o caminho inverso, contando a história do povo preto, que foi quem realmente construiu esse império”.
A atuação do Jongo de Pinheiral também trouxe conquistas políticas importantes. No ano passado, a região foi certificada pela Fundação Palmares como comunidade quilombola, e o grupo busca agora junto ao Incra a delimitação definitiva do território, garantindo mais visibilidade e suporte para as manifestações culturais locais.
Um legado vivo no Brasil
O jongo foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan em 2005. Também conhecido como caxambu ou congo, o ritmo chegou ao Sudeste brasileiro com povos de origem Bantu, trazidos da África para trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar. Após a abolição, o jongo ganhou os morros cariocas, influenciando diretamente a formação das futuras escolas de samba.
Programação continua
As atividades seguem neste domingo (26), data em que se celebra o Dia de Sant’Ana e o Dia Estadual do Jongo. A agenda inclui uma procissão tradicional, com mais de um século de história, que homenageia a santa, sincretizada com Nanã nas religiões de matriz africana. A caminhada tem saída prevista para as 18h, partindo da Casa do Jongo de Pinheiral, acompanhada de ladainhas em honra à santa.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

