As novas diretrizes para o comércio de armas nos Estados Unidos, promovidas pelo governo de Donald Trump, estão gerando alerta entre especialistas em segurança pública. O pacote, que inclui 34 medidas de flexibilização, tem potencial para facilitar o fluxo de armamento pesado para facções criminosas brasileiras, tornando o combate ao crime organizado um desafio ainda maior.
Facilitação do acesso ao armamento
O conjunto de medidas, proposto pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) dos EUA, abrange pontos sensíveis, como a permissão para a compra de armas via correios, a redução da obrigatoriedade de registros pelos vendedores e uma fiscalização mais branda sobre os antecedentes criminais dos compradores. Por serem um dos maiores fornecedores de armas no mercado internacional, a mudança na política norte-americana gera repercussões imediatas em diversas nações.
Dados internacionais corroboram o temor: no México e no Haiti, a vasta maioria das armas apreendidas com cartéis e gangues provém dos Estados Unidos. No Brasil, o cenário não é diferente. Pesquisas indicam que, entre 2019 e 2023, mais da metade dos fuzis ilegais apreendidos na região Sudeste tinha origem norte-americana.
O perigo das peças desmontadas
Especialistas destacam que a estratégia do crime organizado mudou. Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, ressalta que o contrabando de peças semiprontas é uma preocupação crescente. Por não comporem uma arma completa, esses componentes passam despercebidos em muitas vistorias alfandegárias, facilitando o envio pelos correios para o exterior. Para o pesquisador, essa brecha regulatória é uma via direta para o fortalecimento das facções brasileiras.
Interesses econômicos e contradições
O lobby da indústria de armas nos EUA tem atuado fortemente pela redução de controles, buscando expandir seus mercados. Além das medidas internas, o governo Trump também revogou, em 2025, restrições para exportação de armamentos para 36 países, incluindo vizinhos do Brasil, como Paraguai, Colômbia e Bolívia. O Departamento de Comércio americano justificou a decisão como uma oportunidade de competitividade para a indústria nacional.
Essa postura, contudo, é vista por analistas como uma contradição severa. Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, aponta que existe um paradoxo entre o discurso do governo americano de combater cartéis latino-americanos e a liberalização do acesso a armas. “Eles classificam grupos criminosos como terroristas, mas não fazem o esforço necessário para restringir o fluxo de armamento que os alimenta. É uma agenda de mercado que acaba se sobrepondo a qualquer questão de segurança global ou humanitária”, avalia.
A indústria armamentista dos EUA vive um momento de forte expansão, com um crescimento de faturamento de quase 380% desde 2008. Enquanto os lucros e postos de trabalho aumentam no hemisfério norte, especialistas alertam que a conta da violência é paga com o fortalecimento do crime organizado em países como o Brasil, que recebem o excedente desse mercado desregulado.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.

