O Brasil perdeu, nesta quinta-feira (16), um dos maiores nomes de sua história científica. Faleceu em São Paulo, aos 100 anos, a demógrafa Elza Salvatori Berquó. Matemática de formação e cientista pioneira, ela dedicou décadas à compreensão da realidade brasileira por meio da análise rigorosa de dados populacionais e censitários.
Legado acadêmico e compromisso social
Elza Berquó foi peça-chave na articulação de centros de pesquisa fundamentais para o país. Entre as décadas de 1960 e 2000, seu trabalho foi essencial para decifrar os processos de urbanização e as profundas transformações demográficas que moldaram o Brasil moderno. Além do rigor técnico, a pesquisadora marcou sua trajetória pela defesa incisiva dos direitos reprodutivos, do acesso a métodos contraceptivos e pelo enfrentamento persistente da mortalidade infantil. Para Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, Elza foi uma figura rara ao unir, com maestria, a excelência acadêmica ao compromisso inegociável com os direitos humanos.
Uma trajetória de resistência
Nascida em Guaxupé (MG), Elza construiu uma carreira sólida que começou na Universidade Católica de Campinas e passou pela USP e pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Sua carreira, no entanto, enfrentou os percalços do autoritarismo: em 1968, foi aposentada compulsoriamente da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Longe de silenciar, ela uniu forças a nomes como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti para fundar, em 1969, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), tornando-se um refúgio intelectual em tempos de ditadura.
Referência na demografia nacional
O impacto de Elza na ciência brasileira é imensurável. Ela foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), instituição que homenageou a pesquisadora passando a levar seu nome em 2014. No âmbito público, presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), órgão que ajudou a fundar em 1995 para subsidiar políticas públicas estratégicas.
Colegas e acadêmicos, como o demógrafo Eduardo Rios Neto, definem Elza como a “mãe da demografia brasileira”. Para além dos números, a cientista será lembrada pela visão humanista: aquela que, segundo seus pares, enxergava as pessoas por trás de cada dado estatístico, sempre pautando sua atuação pela defesa da democracia e de políticas públicas fundamentadas em evidências.
Fonte: Agência Brasil. Edição: Itarema Direto.

